Um roteiro pelo queijo e paisagens da Serra da Estrela

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Ao final da manhã, Célia Silva já leva bom avanço no esmagamento da coalhada e enchimento dos moldes com que produz o queijo Serra da Estrela DOP na sua queijaria Casa Agrícola dos Arais, em Vide-Entre-Vinhas, concelho de Celorico da Beira. É um duro trabalho manual o que leva a cabo todas as manhãs com a ajuda de três colegas, desde há cinco anos. «O meu avô materno, José Silva, de 85 anos, dedicou-se a vida toda à produção de queijo e nós decidimos continuar o negócio», conta a engenheira zootécnica de 33 anos, apaixonada pela agricultura desde pequena. Atualmente, produz queijo com o leite de duzentas ovelhas de raça bordaleira, criadas em exploração própria, e compra mais leite a oito produtores.

«Estamos a usar uma média de 350 litros diários de leite, o que dá à volta de 55 quilos de queijo por dia», diz Célia, que além de produzir o famoso queijo amanteigado também produz requeijão certificado e o chamado queijo velho.

Com o objetivo de promover o queijo Serra da Estrela DOP e curado de ovelha feito pelos produtores de Celorico da Beira, o município assume vários custos relativos à obtenção da certificação DOP e organiza provas e eventos, como a Feira do Queijo Serra da Estrela. Uma das maiores promoções é sem dúvida a montra do Solar do Queijo, instalado num edifício de meados do século XVIII na zona histórica da vila. Vale a pena visitar a componente museológica – e m que se mostram os utensílios artesanais com que antigamente se fazia o queijo numa cozinha da época – para depois passar da teoria à prática, na cafetaria/loja do piso superior. Há vários produtos regionais – presunto e chouriças, pão de centeio, mel, vinho, compotas – que além de se poderem comprar, pode-se provar e, porque não, harmonizar num final de tarde entre amigos (em grupo, com marcação prévia).

Património com sabor

Apreciadores da gastronomia beirã e fortemente ligados à terra, Luís Ferreira e Sofia Alves não tiveram dúvidas no momento de aceitar o convite que António Nobre lhes fez para gerirem a Quinta Santo António do Rio, uma propriedade herdada há 20 anos e transformada em agroturismo, com restaurante e alojamento. «Deixei de ser instrutor de ginásio e tornei-me gestor», resume Luís, 27 anos, já habituado a receber os comensais e hóspedes de forma calorosa.

Na elaboração da carta do restaurante, com a mãe de António na cozinha, pegaram em receitas antigas «sem fugir ao que os antepassados gostariam de cozinhar» e focaram-se na vitela, borrego e bacalhau assados no forno e no porco preto ibérico grelhado, introduzindo subtis alterações a nível de tempero.

Almoçar ou jantar uma refeição completa, da sopa à sobremesa e com vinho a jarro incluído, é possível por 15 euros (durante a semana, apenas com marcação), um preço acessível se atentarmos na decoração do espaço, na simpatia do atendimento e na qualidade dos produtos.

É que a couve salteada e a batata assada, por exemplo, chegam ao prato diretamente da horta biológica, ou não se tratasse de um verdadeiro agroturismo com 12 hectares, seiscentas oliveiras e onde ainda criam 75 ovelhas bordaleiras em regime biológico. Tudo a 50 metros de distância do Mondego.

Seguindo pela Nacional 16, que acompanha o curso do rio, chega-se até Juncais, freguesia do concelho vizinho de Fornos de Algodres, com cerca de 200 habitantes. Ali, onde o silêncio se ouve, o conselho é dormir na Casa Estrela, um alojamento rural de charme com um loft e três quartos construídos na casa rural centenária onde, durante muito tempo, chegou a viver o professor da aldeia, explica o proprietário Frederico Nascimento, 46 anos, natural de Juncais. O casamento entre o rústico das paredes de pedra e o contemporâneo da decoração faz-se em todas as divisões da casa – com peças que o próprio comprou nos países por onde tem viajado como diplomata, agora sediado em Washington – e ganha especial conforto com as salamandras. Os hóspedes podem também tomar o pequeno-almoço com vista para o jardim e piscina. A capacidade é de oito pessoas, enquanto nos quartos e suites da Casa Grande dos Juncais (a irmã mais velha da Casa Estrela) cabem até trinta, num ambiente completamente distinto.

Da terra para a mesa

As capacidades retemperadoras da região estendem-se a todas as aldeias, e Linhares da Beira, uma das doze Aldeias Históricas de Portugal, não foge à regra. No seu castelo de arquitetura militar, a 280 metros de altitude sobre penedos graníticos a dominar o Vale do Mondego, percebe-se porque é considerada a capital do parapente, recebendo todos os verões provas nacionais e internacionais. «Os velhotes dizem que vento nasceu além, naquela encosta», brinca Paulo Mimoso, anfitrião do Cova da Loba.

O restaurante abriu em 2010, no espaço do antigo lagar da casa onde Paulo ainda vive com a mulher e os filhos. «Criei este projeto não só pela paixão que tenho pela comida e pelos vinhos, mas também porque Linhares da Beira é uma aldeia história, tem imenso turismo e não tinha um serviço de restauração em permanência que fosse ao encontro do que eu acho que é merecedor», justifica o engenheiro florestal de 46 anos.

Ter uma produção biológica de bovinos permite-lhe usar apenas a melhor peça, do lombinho, grelhado com batata e creme de queijo Serra da Estrela naquele que é um dos pratos mais gulosos da carta, renovada recentemente.

Ao prato de javali soma os de cabrito e borrego (disponíveis durante todo o ano) e equilibra tudo com os sabores do polvo grelhado e do lombo de bacalhau no forno com puré de grão e legumes salteados. No final, o requeijão com doce de abóbora não deixa ninguém indiferente. E se os vinhos, 280 referências no total, são de todo o país, já os legumes, sazonais, compra-os sempre que pode a produtores dali: holandeses, ingleses e portugueses que começaram a fixar-se e a quem chama «os novos colonizadores» de Linhares da Beira, onde vivem cerca de 300 pessoas.

Ao toque do sino da igreja matriz a população sai à rua e não raramente junta-se na TiAmélia Mercearia, na porta acima do restaurante, para beber um chá e trocar dois dedos de conversa. O nome é homenagem à mãe de Conceição e Paulo, que teve ali uma mercearia. Na loja, São, como é familiarmente conhecida, vende tudo o que pode dos produtores locais: mel, chás, amêndoas, biscoitos, pão de centeio, azeite, chouriço, cervejas artesanais, vinhos, compotas, chás e artesanato. E diz que em breve quer levar os turistas a conhecer as gentes que os produzem, ou numa caminhada para apanhar cogumelos com um cesto de piquenique debaixo do braço. A promessa é não faltar o omnipresente queijo Serra da Estrela DOP, aquele que Célia produz em Vide-Entre-Vinhas. O queijo é mesmo a estrela da serra.

O queijo Serra da Estrela DOP
É o queijo produzido só com leite de ovelhas de raças bordaleira ou churra mondegueira e que leva obrigatoriamente o selo do produtor, a marca de caseína (o «bilhete de identidade» de cada queijo, com código de produtor e lote) e o rótulo amarelo específico. Existem 28 produtores certificados em toda a região demarcada (que abrange 18 concelhos), seis deles em Celorico da Beira, «a capital do queijo Serra da Estrela». No período de produção 2016-2017, fizeram-se 200 mil unidades de queijo Serra da Estrela DOP e 123 mil unidades de requeijão certificado.

Fonte: Evasões

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