São Mateus. Uma Feira com História e feita de histórias

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Farturas, quentes e boas, gastronomia variada, das Enguias da Murtosa ao regresso dos chocolates Regina com quase duas décadas, carrosséis, carrinhos de choque e máquinas voadoras, “tiro” aos brindes, venda de artesanato, utensílios variados, de pratos a tapetes e, claro, música popular e moderna, para atingir todos os públicos, géneros e preferências.

Ao longo de 10 hectares, iluminados por cerca de 275 mil lâmpadas, erguem-se 300 expositores dispostos por ruas geometricamente organizadas, da Cava do Viriato às margens do rio Paiva, com destaque para o “Picadeiro”, uma espécie de “Boulevard” por onde antes “passavam moças casadoiras e a fina flor da cidade”, num espaço que já recebeu mais de um milhão de visitantes, anunciou a organização no dia 11, números esses que ultrapassam os registados em 2016.

Eis uma breve apresentação da Feira de São Mateus, em Viseu, que arrancou a 15 de agosto e termina no próximo dia 17 de setembro. Ao todo, 38 dias de som, luz, ação e animação num cartaz multidisciplinar, com diversão e atrações para todas as idades de uma Feira que se apresenta com 625 anos, mas cuja nova vida é celebrada desde 1927, ou seja, há 90 anos.

Das farturas às Enguias

O saco cheio de farturas para toda a família faz parte do imaginário de quem passa pela experiência de “ir à feira”. É é por causa da doce iguaria que muitos dos que gostam de “feirar” se deslocam a Viseu durante esta temporada. “As Farturas Tó-Zé” é um dos espaços emblemáticos e vai na quarta geração, sempre a garantir boca adocicada a quem visita a feira viseense.

Bruno Lopes, engenheiro zootécnico, e o pai, António José Lopes, mantém a tradição familiar de vender farturas. “Só fazemos esta feira”, esclarece Bruno Lopes, sobre a tarefa que começou com o seu bisavô.

António José, ex-delegado de propaganda médica, puxa dos galões e afirma que foram os “primeiros a vender farturas recheadas em Portugal”, recordando ainda as vendas pelo bairro da Graça, em Lisboa, e os passeios na mota agora centenária — recuperada para a edição deste ano — com um cesto à frente e que servia para vender os doces na capital e em Viseu.

A avó, Clotilde, 84 anos, supervisiona o trabalho feito por quem permanece durante os 38 dias a enrolar a massa, a colocar no óleo quente e, instantes depois, a cortar o produto feito e passar ao de leve em açúcar.

Mas nem só de farturas se faz a feira. Ainda para satisfazer o apetite, as enguias ocupam um espaço de honra nas tradições gastronómicas e na memória de quem visita a São Mateus. As Enguias da Murtosa, o senhor Joaquim — que leva mais de 60 anos disto — e a Dona Zélia são nomes incontornáveis nesta festa, garante Jorge Sobrado, gestor da Feira de São Mateus e gestor da Marca Viseu.

Os sabores da Bairrada também marcam presença com a “companhia do espumante e leitão”, na qual seis empregados mudam-se de armas e bagagens para Viseu para servir os melhores produtos da região.

“Ainda há aqui um lugar, na roda ao pé da cabine de som”

Maria Aurora, da Casa AssisRego, uma casa de Bordados Artesanais, é outra das feirantes que deixou a sua marca na história da mais portuguesa das feiras. Soma 61 festas consecutivas, ou seja, desde os seis anos que ali se desloca, o que faz desta senhora natural da Lixa uma “peça” da promoção do evento.

“Aprendi o ofício com a minha avó”, esclarece. Numa banca cheia de toalhas, lenços dos namorados com certificado (obedecendo a medidas e especificações), e bordados. “A peça mais cara custa 700 euros”, diz. É uma toalha de linho e demora “três meses a ser feita”, especifica.

A banca fica localizada na fronteira do espaço de restauração com a zona dedicada à parte mais comercial, onde se vende de tudo um pouco, dos bonecos de porcelana aos utensílios de cozinha, a peças de decoração e a música em vários formatos.

Do lado oposto, estão os carrinhos de choque, carrosséis e outras diversões para todas as idades, com destaque para a adrenalina que se respira no “mother horn”, “monster 3” e a montanha russa.

Se as luzes comunicam para atrair compradores de senhas, uma voz anasalada apela a mais uma volta, mais uma viagem. “Ainda há vagas no vagão para esta viagem, cá em baixo ao pé da cabine”, anuncia.

Outras vozes anunciam o “tiro” ao brinde, que já não é feito com “chumbos” mas com munições de (bola de) borracha. Pontaria e um braço comprido é a exigência na barraca das argolas, cujo alvo, e prémio, são garrafas e bebidas alcoólicas.

As diversões servem de antecâmara ou de after hours dos espetáculos musicais. Desde o arranque dos 90 anos da Feira, na sua versão moderna, que por lá passaram Seu Jorge, Marco Paulo, Áurea, Pedro Abrunhosa, Agir ou Dengaz.

José Cid, que atuou a 13, David Carreira, que sobe ao palco dia 15, são os cabeças-de-cartaz destes últimos dias, com o encerramento a recair na Orquestra 625, um projeto musical local que envolve músicos e não músicos que tocam instrumentos originais que vão da percussão como os bombos a objetos como tachos, baldes e outros produtos que caracterizam as vendas ali feitas.

A “guardiã” das festas populares

“Esta é uma feira de afetos”, descreve o historiador Luís Fernando.

A viagem pelos 625 anos de feira começa em 1392, quando D. João I que lhe atribuiu “carta de feira”, passa pela “revitalização” feita pelo “Infante D. Henrique, ainda pela parte “republicana, durante a qual tinha pouco mais que uma rua”, até que se chega a 1927, ano em que se assinala a reinvenção da Feira de São Mateus.

Respirando os ares da Exposição de Paris, a partir de 1927 “passamos a ter uma Feira-Festa”, recorda o professor de história. “Um ano depois surgem os primeiros cartazes turísticos da cidade” já com promoção da feira, sendo o primeiro cartaz de 1929 — Visitar Viseu e a Feira.

É possível ver, no Viseu Arena, algumas imagens e excertos de filmes da década de 30 do século passado sobre a Feira de São Mateus. Revisitando a História, Luís Fernando conclui que esta é uma “feira de famílias onde cada geração encontra a sua feira e cada geração tem uma feira para si”.

E é esta “recuperação de memórias” que Jorge Sobrado, especialista em City Marketing e criador do “Ano oficial para visitar Viseu”, que não é mais que uma “provocação”, diz ter sido o caminho trilhado recentemente na promoção da festividade. “Restituir a historicidade e a memória de uma feira popular” foi o mote para a “operação de resgate, de sobrevivência e afirmação da feira que é a guardiã das feiras populares”, diz o gestor.

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