Políticas públicas criaram aldeias-museu requalificadas mas sem pessoas

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As políticas públicas em torno de projetos como as redes de Aldeias Históricas e Aldeias do Xisto levaram à criação de “aldeias-museu”, espaços requalificados mas vazios e sem pessoas, alerta a investigadora Paula Reis.

“Estes aglomerados rurais tornaram-se num novo universo simbólico para o consumo urbano, ou seja, o espaço rural deixou de ser agrícola e tornou-se um espaço multifuncional associado a novas atividades como o turismo e o lazer”, constata a investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora Paula Reis, considerando que na retaguarda desses imaginários sobre o mundo rural se escondem, “com o alto patrocínio das políticas públicas, os insucessos destas múltiplas iniciativas de desenvolvimento dos territórios rurais, através das supostas novas funcionalidades”.

Para Paula Reis, “é preciso ter coragem e admitir que todas estas reestruturações, reconfigurações e reinvenções não têm representado, para este rural profundo, alternativas eficientes”.

A investigadora, que fez uma tese de doutoramento sobre a Rede das Aldeias Históricas (composta por 12 localidades situadas na Beira Interior), pôde observar que as políticas de intervenções públicas “criaram espaços vazios”.

No caso das Aldeias Históricas, “as fachadas das casas, as praças, os edifícios históricos e os solares foram requalificados, mas hoje são apenas cenários de consumo urbano, onde faltam os atores locais. No entanto, construiu-se um discurso idílico sobre a ruralidade”, frisa, em declarações à Lusa, sublinhando que os múltiplos projetos ensaiados nas últimas décadas, como a rede de Aldeias Histórias ou das Aldeias do Xisto, “foram incapazes de contrariar ou de estancar o despovoamento destes lugares”.

Face a essa realidade, a investigadora considera “um pouco perigoso” um discurso recente das entidades públicas para a afirmação dos territórios “como destinos alternativos aos destinos tradicionais ou massificados”.

“Estes territórios e aldeias têm fortes potencialidades do ponto de vista turístico, mas falta o mais importante, que são as pessoas”, alerta.

Por outro lado, parte das casas que foram reabilitadas no primeiro programa de intervenção (1994-2006) das Aldeias Históricas já apresentam, de novo, sinais de avançado estado de degradação, além de estas redes também terem aumentado a especulação imobiliária nestes locais.

A acrescer a todos estes problemas, regista-se a falta de serviços importantes para garantir a fixação de pessoas, como escola, mercearia, café ou um táxi, e registou-se, ao longo dos anos, o encerramento de agências bancárias, repartições das finanças, estações de correio ou farmácias nas sedes de concelho.

O coordenador da Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto (ADXTUR), Rui Simão, sublinha que a demografia é como um porta-aviões: “Se virarmos de trajetória quando vemos a costa, vamos bater”.

“O nosso papel é gerar atividade nas aldeias, nem é contrariar o fluxo de saída. É gerar novas motivações para criar algum carácter nas aldeias”, justifica, notando que em algumas das Aldeias de Xisto há casos positivos de aumento de residentes ou, pelo menos, de atividade, nomeadamente com a criação de postos de trabalho.

“Temos de pensar como podemos estruturar algumas das aldeias para serem palco daquilo que é a vida moderna. Casal de São Simão [Figueiró dos Vinhos] é exemplo disso – não tem habitantes permanentes, mas é das que têm mais vitalidade ao fim de semana”, salienta.

Para Rui Simão, a transformação de algumas localidades em aldeias-fantasma é uma fatalidade no país, sendo necessário concentrar as energias em algumas aldeias.

“Temos de escolher em quais fazer a aposta”, defende.

Para o coordenador da ADXTUR, é também necessário um salto de paradigma: “Quando nos focamos no desenvolvimento do interior a lógica passa por urbanizar o rural. Há que olhar para o rural de forma diferente com que se olha para o urbano. Temos os mesmos instrumentos, apesar de realidades distintas”.

Já o presidente da Rede das Aldeias Históricas, António Robalo, foca-se na possibilidade que a iniciativa alcançou para dinamizar a requalificação das localidades, apesar de admitir que essa requalificação não conseguiu estancar ou minimizar o despovoamento – um dos propósitos da rede.

No entanto, “promove a vinda de gente de forma temporária”, contrapõe, considerando que não se pode ter o investimento na requalificação das aldeias para depois se assistir ao encerramento de estações de correios, agências de bancos ou escolas.

“Isso cria uma falta de confiança enorme para aqueles que ainda resistem e cá vivem”, disse António Robalo.

Questionado sobre a possibilidade de, a médio prazo, estas aldeias se transformarem em aldeias-museu, sem gente, António Robalo reconhece que existe.

“A nossa esperança é que, através deste trabalho em rede, se possa atenuar esse efeito e que outras chegarão lá primeiro que as Aldeias Históricas, porque tiveram uma atenção especial”, afirma.

Fonte: Sapo.pt

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