O trevo de quatro folhas está a desaparecer

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O trevo-de-quatro-folhas já não é avistado em território nacional há quase quatro anos. Não se trata do Trifolium com mutação genética, que alguns supostos sortudos ainda avistam nos prados, mas sim do feto aquático Marsilea quadrifolia, cujo último núcleo populacional conhecido em Portugal estava localizado perto da foz do rio Corgo, em Trás-os-Montes. De acordo com dados da Sociedade Portuguesa de Botânica, aquele habitat não alberga esta espécie desde 2006 e a última vez que foi observado em território nacional foi em 2014. “Desde então, todos os esforços de prospeção têm sido infrutíferos”, conta Ana Francisco, coordenadora executiva do projeto “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”. Este feto ainda não foi declarado extinto, mas poderá vir a sê-lo se continuar a não ser visto até 2027. Para já, explica, “tem o estatuto de criticamente em perigo, porque se assinalam declínios continuados ao nível da extensão de ocorrência, área de ocupação, qualidade do habitat, tamanho da população e número de localizações”.

Esta é uma das 122 plantas vasculares (espécies da flora com vasos que transportam seiva para alimentar as células) já avaliadas pelo grupo de trabalho liderado pela Sociedade Portuguesa de Botânica e pela Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação (Phytos). Até setembro de 2018, a missão é elaborar a lista de plantas que possam estar em risco em Portugal e o que está a ser feito ou pode vir a ser feito para protegê-las. O projeto arrancou em 2016 e conta com a parceria do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e o contributo de meia centena de botânicos profissionais e amadores.

O ponto de partida foi a base de dados Flora-On.pt a que se seguiu a recolha de informação histórica em herbários e mais trabalho de campo. “Compilamos informação histórica e vamos aos locais onde se conhecia a presença da planta há 50 anos ou a outros onde há probabilidade de encontrá-la”, elucida André Carapeto, o botânico que coordena o trabalho técnico deste projeto. “As principais ameaças são a expansão urbanística, a erosão e ocupação do litoral e a agricultura intensiva e é preciso inverter isto”, adverte Ana Francisco.

Uma lista há muito esperada

“Há pelos menos 20 anos que esta avaliação estava por fazer, mas só foi possível avançar há cerca de um ano, juntando estas entidades e a aprovação de uma candidatura financiada pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (Poseur) e pelo Fundo Ambiental”, explica Ana Francisco. Admitindo que o prazo de dois anos e o orçamento de 411 mil euros “são curtos”, a especialista em orquídeas sublinha que a proteção destas espécies mais raras e ameaçadas “é importante porque, preservando a biodiversidade, tem-se a chave para a sobrevivência de todos os seres vivos e também pelo risco de desaparecerem sem que tenhamos o privilégio de as contemplar”. E, acrescenta André Carapeto, “esta lista vermelha serve de ferramenta para ajudar a elaborar políticas de conservação e definir o que vale a pena proteger ou reintroduzir”.

Para ajudar neste trabalho esperam contar com donativos e apadrinhamento de plantas assim como de novos voluntários. “O envolvimento das pessoas pode também ajudar a alertar para o que se passa no terreno em termos de ameaças”, afirma o coordenador. O grupo de trabalho conta com 14 técnicos, mas apenas três deles a tempo inteiro e 11 a tempo parcial. “Alguns dos melhores botânicos são amadores que têm um conhecimento fantástico sobre plantas”, sublinha André Carapeto. Entre estes há professores, investigadores, engenheiros do ambiente, agrónomos, geólogos, militares, matemáticos e reformados.

A avaliação preliminar — cuja lista está publicada no portal http://listavermelha-flora.pt — centrou-se, para já, nas plantas que têm estatuto de proteção de acordo com a Diretiva Habitats da UE. Já constataram que 13 estão “criticamente em perigo” (ver fotos) e quatro estão extintas (das quais não há imagens, nem nomes comuns conhecidos).

Entre as que já desapareceram do território continental português estão a Armeria neglecta, um pequeno arbusto que habitava exclusivamente clareiras de matos do Baixo Alentejo; a Astragalus algarbiensis, uma planta com flor que existiu em prados costeiros e substratos arenosos na Península Ibérica, e que foi colhida por cá pela última vez no século XIX, existindo ainda em estado selvagem em Marrocos; a Euphrasia minima, um arbusto endémico das áreas húmidas de montanha; e a Lindernia procumbens, um terófito que existia nas margens arenosas de cursos de água.

Mas também há boas notícias, como a redescoberta de plantas que já se julgavam extintas. “É sempre fantástico quando encontramos alguma que não se avistava há décadas, como a Viola hirta, um tipo de violeta que não se via desde a década de 90 do século XX e que foi reencontrada em Trás-os-Montes”

Portugal dispõe de livros vermelhos de espécies ameaçadas da fauna de vertebrados e da flora briófita (que integra musgos, hepáticas e antóceros), mas não sabe bem o que se passa com as restantes cerca de três mil espécies de plantas que existem no país, 621 das quais integram a lista da União Internacional para Conservação da Natureza (conhecida pela sigla inglesa IUCN). Na Europa, apenas Portugal, Macedónia e Montenegro não dispõem de Listas Vermelhas da Flora, quando os outros já vão na sua segunda ou terceira revisão. A situação será alterada no final de 2018.

Fonte: Expresso

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