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Governo nomeou Bernardo Gouvêa, até agora presidente da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, para o lugar, mas o setor teme que as suas posições anti-ViniPortugal prejudiquem a promoção dos vinhos portugueses.

O Instituto da Vinha e do Vinho já tem um novo presidente, cuja nomeação foi publicada em Diário da República nesta segunda-feira. Bernardo Gouvêa, até agora presidente da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, foi o escolhido mas, apesar do seu longo passado ligado aos vinhos, a escolha mereceu reação no setor. As posições críticas do gestor, ao longo dos anos, em relação à ViniPortugal e à estratégia de promoção internacional dos vinhos portugueses, faz que o setor tema que, à frente do IVV, Bernardo Gouvêa possa interferir com os apoios atribuídos para esse fim. Mas há, também, quem saia em sua defesa, considerando-o uma “ótima escolha”.

As principais associações já manifestaram ao governo a sua “preocupação” de que esta nomeação possa “comprometer o rumo estabelecido durante os últimos anos, nomeadamente na gestão dos apoios à promoção internacional da marca Wines of Portugal e à reestruturação da vinha”. Isso mesmo se pode ler na carta enviada ao ministro da Agricultura, Capoulas Santos, pela Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal (ACIBEV), pela CAP – Agricultores de Portugal e pela Fenadegas – Adegas Cooperativas de Portugal, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, e na qual as três estruturas prometem uma atitude “construtiva mas vigilante” para com o novo presidente, “tendo como objetivo a evolução e a sustentabilidade deste importante setor económico em Portugal”.

O DN/Dinheiro Vivo tentou ouvir as várias associações signatárias, mas sem sucesso. No entanto, sabe que a carta que chegou ao governo sofreu várias alterações desde o seu primeiro rascunho. Fonte conhecedora do processo reconhece que o tema “é sensível” e que terá, por isso, obrigado a “muita negociação” na construção de um documento que “traduzisse a posição consensual do setor”. O objetivo era que esta fosse “firme”, mas, simultaneamente, “sensata e equilibrada”.

Mas o que temem os operadores? “Bernardo Gouvêa, ao longo do seu percurso, revelou alguns anticorpos e um espírito muito crítico em relação à ViniPortugal e há algum receio que, agora que será presidente do IVV, venha a interferir na estratégia de promoção do setor, já que a ViniPortugal vive dos apoios do instituto”, refere uma outra fonte contactada. Com um orçamento anual da ordem dos oito milhões de euros, financiado a 80% pelo IVV, a ViniPortugal é uma organização interprofissional que tem a seu cargo a gestão da marca Wines of Portugal, realizando, anualmente, mais de cem ações de promoção dos vinhos portugueses no mundo, envolvendo mais de 370 agentes económicos nacionais.

A falta de auscultação do governo ao setor – que soube da notícia da nomeação de Bernardo Gouvêa pela Revista de Vinhos – também não caiu bem. “É verdade que o Estado tem todo o direito de nomear quem lhe parece mais adequado, mas, em ocasiões anteriores, tem havido uma cortesia em assegurar consensos no setor”, frisa um outro responsável auscultado. Que lembra o papel “determinante” do IVV na regulamentação e certificação dos vinhos, mas, também, na sua defesa no exterior, “fazendo a ligação com a Europa e com a OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho”.

Sobre a ViniPortugal, sublinha que a prova de que a promoção “tem sido bem feita” é a “notoriedade alcançada pelos vinhos portugueses no mundo, o incremento de vendas e o crescimento em valor”. Só entre 2010 e 2017, as exportações cresceram quase 27% para mais de 779 milhões de euros, sendo que, neste ano, tudo indica que haverá novo recorde: até setembro, as vendas ao exterior estavam a crescer 5,35% para 565,4 milhões de euros. A ambição da ViniPortugal é alcançar os mil milhões de euros na exportação até 2022. O DN/Dinheiro Vivo tentou, também, ouvir o presidente da ViniPortugal, Jorge Monteiro, que não esteve disponível para comentar o assunto.

Mas nem só de críticas é feita a reação no mundo dos vinhos à nomeação de Bernardo Gouvêa. Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes e da ANDOVI – Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas, garante que se trata de um “bom profissional” e um “gestor experiente” que constitui uma “excelente escolha para suceder a um excelente presidente”, em referência a Frederico Falcão, cujo mandato terminou em junho. O cargo estava a ser exercido, interinamente, por Toscano Rico, vice-presidente de Frederico Falcão, no IVV desde outubro de 2014 e que era um dos candidatos ao lugar.

Bernardo Gouvêa entrará em funções, segundo o despacho publicado em Diário da República, a 2 de dezembro. Licenciado em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, diplomado em Marketing pelo IADE e com um MBA da Universidade Católica, Bernardo Gouvêa iniciou a sua atividade profissional em 1996 na Herdade do Esporão. Passou pela JP Vinhos, pela Bacalhoa, Companhia das Quintas e pela Adega Cooperativa do Redondo, entre outros. Em junho de 2018 havia sido eleito presidente da CVR Lisboa.

Fonte: Diário de Notícias

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