Douro: “Sem rega arriscamo-nos a ficar com hectares e hectares de vinhas mortas”

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Vendas de DOP Douro crescem a dois dígitos todos os anos, mas valem, ainda, cerca de metade da denominação Porto. E competem pelas mesmas uvas, pelas quais pagam muito menos.

O Douro, a primeira região demarcada e regulamentada do mundo, comemora nesta segunda-feira, dia 10, o seu 262º aniversário. Quase três séculos depois, o berço do mais internacional e reconhecido produto português, já não vive exclusivamente do vinho do Porto.

Os vinhos de mesa da denominação de origem Douro têm vindo, nas últimas duas a três décadas, a impor-se crescentemente no mercado nacional e internacional, assumindo-se como um rival de peso. Sobretudo tendo em conta que ambas as denominações de origem são produzidas a partir de uvas das mesmas parcelas, mas que no caso do Porto chegam a custar o triplo. Uma mudança de paradigma que tem gerado grande polémica.

O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) admite que é preciso estudar a fundo o problema e encontrar uma “equação económica do território” que permita uma distribuição do rendimento “mais justa e adequada” aos viticultores.

Um trabalho que deve ser desenvolvido “nos próximos tempos”, defende Manuel Cabral, lembrando que é no seio do conselho interprofissional do IVDP, no qual têm assento os representantes da produção e do comércio, que a região “tem de encontrar soluções equilibradas e justas”.

Em 2017, as vendas de DOP Douro ultrapassaram já os 157 milhões de euros. E embora gerem ainda só metade do volume de negócios do vinho do Porto, a verdade é que os vinhos do Douro crescem a dois dígitos, todos os anos, enquanto o Porto se mantém estagnado: 311,9 milhões em 2017 versus os 311,4 do ano anterior.

No primeiro semestre deste ano, o DOP Douro cresceu 6,4% em valor e 5,1% em volume, enquanto o vinho do Porto caiu 1,1% em quantidade e 1,4% em valor. A verdade é que os tempos mudaram e os consumidores também. “O Porto tem resistido muito bem à crise, que não é exclusiva nossa mas dos vinhos fortificados e licorosos, conseguindo entrar em novos momentos de consumo, alargando a sua posição como vinho de aperitivo ou como base para cocktails.

A verdade é que a imagem do vinho do Porto está melhor do que nunca, do ponto de vista qualitativo”, diz a diretora-geral da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP). Isabel Marrana dá o exemplo do Vintage 2016 da Taylor’s, avaliado com 100 pontos pelo crítico americano James Suckling, que fala num “ano lendário”.

Já Pedro Silva Reis, CEO da Real Companhia Velha, reconhece que o Douro tem uma “equação complexa” face ao aumento “brutal” dos custos de produção, designadamente da mão-de-obra, cujo preço “mais do que duplicou”, que não foram acompanhados pelo aumento do preço final dos vinhos.

No entanto, recusa falar em crise no vinho do Porto, preferindo falar em “grandes desafios” e em “alguns problemas” em mercados pontuais, como a França ou a Bélgica. E, claro, lembra que o vinho do Porto, como vinho doce e fortificado que é (e, consequentemente, com maior grau alcoólico), colide com as novas tendências e as alterações dos hábitos de consumo. Mas desvaloriza. “Nenhum produto se mantém durante três séculos na crista da onda. Temos de nos habituar a estes ciclos e de nos sabermos reinventar, mudando o discurso, a postura e a abordagem aos mercados”, destaca.

Manuel Cabral recusa falar em crise, sublinhando que a queda “ligeira” em quantidade tem sido compensada por “um concomitante aumento do valor”, bem como de um crescimento do peso das categorias especiais.

Além disso, destaca a “vitalidade” do próprio setor. “Somos uma região com uma enorme tradição, mas que está a inovar com novos produtos, como o vinagre de vinho do Porto, que há meia dúzia de anos era visto quase como uma heresia”, frisa.

A redução do teor alcoólico nos vinhos correntes, o fim da obrigatoriedade de uso do selo à cavaleiro (o selo de garantia de papel no gargalo das garrafas) e a aprovação da redução de 150 para 75 mil litros do stock mínimo exigido para quem quer inscrever-se como comerciante de vinho do Porto são outras das medidas aprovadas pelo Conselho Interprofissional e remetidas ao governo para aprovação.

“Acredito que a região entrou num tempo em que demonstra maturidade e vontade de olhar para os seus problemas e de os resolver”, defende Manuel Cabral. Isabel Marrana fala num setor “maduro e orgulhoso”, que quer “menos mas melhor” Estado.

“Somos um setor orgulhoso, que não pede subsídios, mas apenas que sejam libertadas as verbas que transferimos para o organismo certificador, através das taxas que pagamos, e que o Estado tem vindo a cativar, retirando capacidade de promoção ao IVDP”, defende a Associação das Empresas.

Em causa estão cerca de oito milhões de euros, resultantes dos saldos de gerência dos últimos exercícios. Uma reivindicação antiga, mas que permanece sem resposta. Sobre o futuro e o desafio de “compatibilizar” os diferentes interesses na Região Demarcada do Douro – basta ter em conta que na produção há realidades tão distintas como os pequenos viticultores, as adegas cooperativas e os produtores-engarrafadores e que, no comércio, a concentração é de tal ordem que cinco empresas representam 86% das vendas de vinho do Porto -, o presidente do IVDP lembra que é preciso ponderar bem as decisões e soluções. “Às vezes há a tentação de tomar decisões precipitadas sem ver todas as implicações no território e nos diferentes agentes económicos.

A classificação do Douro como património mundial está assente na vinha e não podemos correr o risco de haver um abandono de terras que possa perturbar essa classificação”, frisa. Quanto à vindima, que está a começar, ainda só nas uvas brancas, Manuel Cabral recusa tecer grandes previsões. “Prevemos que a queda possa ser superior a 20%, mas ainda é prematuro. Estamos preocupados, foi um ano atípico e muito difícil, vamos ver como decorre a vindima”, diz.

A produção autorizada de vinho do Porto é neste ano de 116 mil pipas, duas mil a menos do que no ano passado. Vintage 2016. A mais recente ‘joia da coroa’ do ‘Porto’ está a chegar ao mercado São muitas as categorias especiais do vinho do Porto, mas o Vintage permanece como a ‘joia da coroa’, um vinho de “qualidade excecional” e o único ‘Porto’ com capacidade de envelhecimento em garrafa durante longas décadas. E que gera uma imensa curiosidade nos mercados, com destaque especial para o inglês e americano, bem como o dinamarquês, entre outros.

O último Vintage do setor era de 2011 e gerou um reconhecimento mundial extraordinário. Em 2013, quando chegou ao mercado, as vendas da categoria chegaram quase aos 23 milhões (num ano normal rondam os 12 ou 13 milhões).

Este ano chegou o Vintage 2016 (este é um vinho que é engarrafado dois anos após a vindima) e o seu efeito já se faz sentir, com a categoria a crescer no primeiro semestre 29,1% em quantidade e 44,6% em valor. Embora matematicamente o peso do Vintage nas vendas globais do setor seja marginal – vale 0,75% em quantidade e 4,3% em valor – o interesse que gera entre os enófilos é enorme. E 2016 ficará na história da vitivinicultura duriense como um ano de exceção, com 63 empresas a declarar Vintage, num total de 107 referências.

Valores recorde no sector. E a Confraria do Vinho do Porto celebrou o momento, proclamando 2016 Ano Vintage e criando um lote especial, a partir da junção de 40 desses vinhos, para a criação do Vintage Confraria 2016, cerimónia incluída nas comemorações do aniversário da Região Demarcada do Douro.

Fonte: Dinheiro Vivo

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