Bairrada, Dão e o Bairradão

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Durante o Vinhos de Portugal muitos desses vinhos estarão mostrarão as faces contemporâneas dessas duas regiões antigas e sofridas

Bairradão não parece uma expressão do vinho. Entre os brasileiros, lembra nome de estádio de futebol. Mas, entre os portugueses, a palavra surge como uma forma irreverente de promover duas regiões tão nobres quanto injustiçadas: a Bairrada e o Dão. Trata-se de um evento que chega a Lisboa pelo quinto ano consecutivo, em julho, para mostrar aos próprios lusitanos a qualidade dos vinhos daquelas duas áreas.

Durante o evento Vinhos de Portugal, que começa hoje no CasaShopping, muitos desses vinhos estarão em exibição, mostrando as faces contemporâneas dessas duas regiões antigas e sofridas, do meio-norte de Portugal, que, se eram conhecidas pela potência de seus tintos, mostram agora a sua roupagem mais elegante e, em muitos casos, surpreendente. É a nossa versão do Bairradão.

Quem acompanha os vinhos portugueses já tem alguns nomes bem familiares em sua lista de preferidos. É o caso de Luis Pato, considerado o rei da baga. E baga é a uva-símbolo da Bairrada, a mesma região que batiza o mais famoso dos leitões assados. Pato é reconhecido por ter domado essa uva complicada, que costumava funcionar somente depois de alguns anos de guarda, mas que, hoje, pode fornecer vinhos mais frescos e excelentes rosés. Um deles, o Duet, um espumante que o próprio Luis Pato produz – e costuma servir pessoalmente, com seu sorriso bigodudo e debochado. Do seu lado, estarão outros produtores da área, como a Adega de Cantanhede, que mostram as suas interpretações sobre essas vertentes jovens de uma uva tão antiga.

Vizinho da Bairrada, o Dão merece todas as reverências dos produtores portugueses. Foi graças à teimosia de muitos produtores e dos investimentos em pesquisa de empresas como a Sogrape que a mais famosa uva portuguesa, a touriga nacional, nasceu, cresceu, renasceu e tornou-se realmente nacional. Hoje, é base de grandes vinhos em todos os vinhedos portugueses, de norte a sul.

Aliás, não são só os portugueses que agradecem. Segundo Richard Mayson, historiador e crítico inglês, em seu livro “Wines of Portugal”, foi o Dão que salvou o comércio de Bordeaux, em fins do século XIX, vendendo vinho a granel para compensar as perdas dos franceses com a praga da filoxera, que quase riscou a vinha do mapa-múndi. Durante o Vinhos de Portugal, procure os rótulos de Juliana Kelner, uma brasileira, que mostra o caráter da uva, suas notas de pimentões frescos e frutas, em um perfil que, não por coincidência, levou a crítica Jancis Robinson a considerar a região como a Bordeaux de Portugal.

Daquela área, vale a pena também procurar, durante o evento, uma outra uva que se tornou festejada nos últimos anos, a encruzado. É densa, perfumada, dourada, instigante, com notas de pêssegos delicados. Combina com peixes, claro, dentro da cartilha das harmonias clássicas, mas tem uma estrutura que sustenta pratos dignos de tintos, como as massas com molhos de tomate.

Se as uvas e os vinhos do Dão e da Bairrada têm tanta força por trás da elegância, há força histórica por trás disso. A cidade de Viseu, na Beira Alta, coração do Dão, era a mais importante dos tempos romanos. Mas seus vinhedos foram arrancados por ordem do Marquês de Pombal, que, tal como faria Salazar, dois séculos depois, pretendia dar toda a preferência para a produção de vinhos do Douro. Como disse antes, são uvas que nasceram e renasceram sob o olho de produtores que resistiram e insistiram. Raças de uvas e homens em desfile no Vinhos de Portugal — e em nosso Bairradão particular.

Fonte: https://oglobo.globo.com/

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