A queijeira que nem gosta de queijo mas ama a serra da Estrela e as suas ovelhas

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Não é de estranhar, por isso, que Célia Silva tenha crescido com o sonho de um dia “ser agricultora, de ter animais”. E que se tenha despedido da cooperativa agrícola em Vila do Conde, onde trabalhava há três anos, para regressar à terra e dar continuidade ao legado familiar. Agora com uma produção moderna de queijo e requeijão Serra da Estrela DOP certificado. “Os meus avós estavam a deixar a actividade. Ou avançávamos com o projecto ou parava”, recorda. A escolha foi fácil. Tinha 28 anos quando voltou para criar a Casa Agrícola dos Arais. Hoje, com 33, continua a ser uma das produtoras mais jovens da região.

Actualmente, têm um rebanho com cerca de 200 ovelhas de raça bordaleira. “Acho importante não deixarmos extinguir o que é nosso. Há uns anos, a maioria dos produtores estava a introduzir raças exóticas e a bordaleira, que é autóctone, ia deixar de existir”, lamenta. Esta manhã, a maioria do rebanho pasta num dos pequenos terrenos que a família tem na freguesia. Muitas acabaram de ser mães. Na época de partos, entre Setembro e Outubro, nasceram 91 borregos. A maioria ainda se aninha na loja dos animais, mesmo ao lado da sala de ordenhas.

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É quando as crias já têm umas semanas que o trabalho recomeça na queijaria, depois de parar durante o período de gestação das ovelhas. Em meados de Outubro, quando visitámos a quinta, faziam-se os primeiros queijos. “Ainda não atingimos os 200 litros diários”, contabilizava Célia. Com a amamentação dos borregos, no início da temporada há sempre pouco leite disponível. Mas, durante o ano passado, trabalharam, em média, 280 litros de leite por dia; o equivalente a cerca de 56 quilos de queijo. Na sala de produção, o aparato moderno está muito distante do modo tradicional que aprendeu com a avó. “Antigamente punham o leite a aquecer ao pé da lareira, agora coalhamos em banho-maria dentro de cubas”, compara. “A minha avó se calhar fazia oito ou nove queijos num dia, nós temos alturas de fazer 80 ou 90.”

O processo é o mesmo, mas a forma de o fazer e a dimensão da produção são muito diferentes. Para aprender a fazer queijo certificado, artesanal mas à escala do século XXI, não chegava a herança familiar. Célia teve de socorrer-se da boa vizinhança. “Quando começámos, falei com muita gente, pedíamos a pessoas conhecidas para virem ver o que achavam”, recorda. Visitou três queijarias da região e, quando algo corria mal, ligava aos produtores a pedir conselhos. Foi aprendendo alguns truques, como deitar água na câmara frigorífica para criar mais humidade ou baixar a ventilação para que o queijo saísse amanteigado. O resto veio com muita tentativa e erro.

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“Se fosse só deitar uns pozinhos lá para dentro, espremer e ficar tudo sempre igual era fácil. Mas, às vezes, há queijos feitos no mesmo dia, até da mesma massa, e saem diferentes.” A alquimia do queijo tem muito que se lhe diga. “Costumo dizer que não o entendo”, ri-se. Só no ano passado ficou mesmo como queria. Houve até quem lhe dissesse que tinha sido “o melhor queijo que já tinha comido”. E é aqui que confidencia. “Sinceramente, não sou grande apreciadora. E agora, depois de ver tanto, todos os dias, acho que ainda tenho menos vontade de o comer”, ri-se. Ouvir aquelas críticas é o que a motiva ainda mais a trabalhar. “Aí compensa as 11 ou 12 horas de trabalho e as noites mal dormidas.”

Não é uma vida fácil. Na queijaria, trabalham de segunda a sábado. No resto da quinta, não há folgas. Há que ordenhar as ovelhas de manhã e ao final da tarde, levá-las para as pastagens, guardá-las, limpar os estábulos e recolher o leite que compram a outros pastores da região. E cuidar da filha, Leonor, que nasceu um mês antes de voltar. “Foi quase esperar que ela nascesse para virmos.” Duas funcionárias ajudam na queijaria, o resto do trabalho é distribuído por Célia, pelo pai e, desde que se separou do ex-marido, pela irmã. “Quando soube, apareceu para ajudar e foi ficando”, recorda. Há dias em que tem vontade de desistir, questiona se devia ter vindo. “Mas depois há alturas em que achamos que não sabíamos fazer outra coisa na vida.” Gosta de fazer o queijo e do prazer que dá quando sai bem, mas que ninguém lhe tire o contacto com os animais. Foi esse “o sonho” que a fez estudar Engenharia Zootécnica, em Lisboa. Gosta dos partos, do trato quotidiano com borregos e ovelhas. De levá-las para o pasto e de ficar a guardá-las. “Às vezes, dá para dormirmos umas sonecas, outras vezes quando acordamos já estão a fugir”, ri-se.

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Quando perguntamos que futuro vê para o queijo Serra da Estrela, a resposta é simples. “Espero que haja mais pessoas a ver o que eu vi e que decidam dedicar a vida à agricultura.” Para Célia, que também é membro da direcção da Cooperativa dos Produtores de Queijo Serra da Estrela (Estrelacoop), o copo está meio cheio. Há cada vez mais procura, estão a abrir queijarias maiores e o preço tem vindo a subir de ano para ano. Mas é difícil encontrar trabalhadores. E a seca tem encolhido as pastagens. “Há produtores que ainda não tiveram erva para dar às ovelhas. Estamos a gastar mais em ração num mês do que em dois no ano passado”, exemplifica. “Este ano, há menos queijo. Não chega para as encomendas.” Muitos consumidores continuam sem saber distinguir entre queijo de ovelha curado, muitas vezes vendido como “queijo da serra”, e o queijo Serra da Estrela certificado. “Essa é a minha batalha”, reage. Mas acredita que, pouco a pouco, o queijo Serra da Estrela “vai ter dias melhores”. “Se um produto é tão apreciado e considerado um dos melhores do mundo, porque é que havia de estar para acabar?”

Fonte: Jornal PublicoLer Artigo Original

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