Fórum Nacional de Apicultura: Agricultura e apicultura devem trabalhar lado a lado

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Foto: Margarida Matos Fórum Nacional de Apicultura: Agricultura e apicultura devem trabalhar lado a lado

A agricultura e a apicultura devem caminhar de mãos dadas para o crescimento sustentável das duas actividades, foi uma das ideias-chave do XVII Fórum Nacional de Apicultura, que decorreu no passado sábado dia 15 de Outubro, na Praia da Vitória, Ilha Terceira, co-organizado pela Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT) e pela Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), entidade que este ano assinala 20 anos de existência.

“Para a saúde das abelhas e a qualidade do mel, as abelhas necessitam de um pastoreio com uma grande variedade de fontes de alimento, que nalguns casos são maioritariamente culturas agrícolas, no entanto, o modelo agrícola predominante é o da monocultura de produção intensiva”, defendeu o presidente da Associação Europeia de Apicultores Profissionais, Walter Haefeker.

O melhor exemplo da sinergia entre agricultura e apicultura, divulgado no Fórum, foi um projecto criado em 2010, na Alemanha, para a produção de leite e manteiga ‘amigos das abelhas’. Os produtos encontram-se à venda, devidamente rotulados, em mais de 150 supermercados alemães. Os produtores de leite que aderem a este sistema promovem o crescimento algumas zonas de pasto para as abelhas e não devem utilizar pesticidas à base de neonicotinóides.

Leite amigo das abelhas é mais bem pago

Numa altura em que o sector do leite está em crise, nomeadamente devido à liberalização das quotas de produção na UE, esta é uma forma de valorização do produto. Um litro de leite ‘amigo das abelhas’ é pago em média a 0,40 cêntimos ao produtor, enquanto um litro de leite convencional ronda os 0,23, na Alemanha.

A ideia já ganhou adeptos em França, onde existem alguns viticultores ‘amigos das abelhas’ e, entretanto, uma cadeia de supermercados francesa anunciou que vai produzir uma linha de produtos amigos das abelhas.

Açores quer estatuto indemne à Varroose

Entretanto, o Governo Regional dos Açores apresentou à Comissão Europeia a candidatura para obtenção do estatuto de zona oficialmente indemne de Varroose, doença que afecta as abelhas. Um dos outros assuntos falados no Fórum. O pedido reporta a todas as ilhas, à excepção das ilhas do Pico, Faial e Flores. A Varroose é provocada por um ácaro parasita e, de momento, apenas as ilhas de Man, no Reino Unido, e de Alan, na Finlândia, detêm o estatuto de zonas indemnes a esta doença.

Até ao final do ano, o Governo Regional dos Açores prevê que a candidatura seja aprovada pelos Estados-Membros. Para o secretário Regional de Agricultura e Ambiente, Luís Neto Viveiros, o facto de a Região Autónoma “ter um estatuto sanitário invejável conduz à diferenciação e valorização dos produtos apícolas dos Açores”.

O mel é conhecido há milhares de anos pelas suas características anti-bacterianas e também esse facto foi debatido no Fórum. A Universidade dos Açores deu a conhecer novas possibilidades de valorização do mel nesta área, tais como compressas indicadas para o tratamento de queimaduras, discos de amamentação que incorporem o mel na sua composição, de forma a evitar o desenvolvimento de infecções, e no tratamento de mamites bovinas. Esta última solução pode ser utilizada na produção de leite em modo de produção biológico. A investigadora responsável pelo estudo referiu que alguns dos méis do continente e dos Açores apresentam uma acção anti-bacteriana comparável ao mel de Manuka, um mel produzido na Nova Zelândia muito conhecido e que atinge preços bastante elevados.

A inexistência de investigação cientifica sistematizada e o desconhecimento das características físico-químicas do mel dos Açores levou a que fosse estudado o seu perfil polínico. A principal conclusão foi de que a composição do mel dos Açores apresenta três grandes grupos polínicos: faia da terra, incenso e trevo branco. A produção de mel no conjunto de todas as ilhas ronda as 70 a 80 toneladas anuais.

Balanço positivo

“Tivemos oradores de grande nível. Em termos de conhecimento adquirido para o sector, penso mesmo que foi um dos melhores de sempre, defendeu o presidente da AAIT, José Azevedo. Uma das ideias-chave para o futuro do sector é que as organizações de produtores “devem integrar toda a fileira, desde a produção até ao embalamento, porque só assim é possível uma valorização contínua do mel”.

“Foi um dos congressos mais participados, o que é de assinalar por ter acontecido nos Açores, um local de acesso mais difícil e com custos mais elevados. Destaco a mesa redonda sobre a apicultura na Macaronésia, onde foi dado o primeiro passo para uma maior cooperação entre zonas ultra-periféricas que apresentam grande potencial para o desenvolvimento da apicultura, como Cabo Verde”, referiu Manuel Gonçalves, presidente da FNAP.

A propósito dos 20 anos da FNAP, o dirigente que foi um dos seus fundadores, salienta que “ainda há muito por fazer. O caminho passará sempre pela qualidade e profissionalização. Nos últimos dez anos, a produção e o número de efectivos tem crescido 5% ao ano”.

A produção de mel em Portugal tem vindo a crescer de forma sustentada desde 2007 e, no ano passado, atingiu o valor mais elevado desde 2000, com 11.521 toneladas, das quais 2.000 toneladas são exportadas para diversos países. Nos últimos 3 anos, foram instaladas em Portugal 52.371 novas colónias de abelhas e o número médio de colónias por apicultor aumentou de 34 para 59.

A União Europeia é o segundo produtor mundial de mel, com uma quota de mercado de 12%, ultrapassada apenas pela China, o líder incontestável em quantidade, representando 28% da produção mundial.

Agricultura e Mar Actual

Apicultura 2016-10-19 Ana Cordeiro de SáFonte Original

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